segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

2-Os Uffizi, onde o tempo pára



Enquanto esperava para entrar, tive oportunidade de fazer dois desenhos das esculturas de célebres florentinos que enriquecem as fachadas deste que é o mais antigo museu do mundo. Um desenho por cada hora de espera. Lá dentro foram muitas mais as horas. Mas pareceram apenas esse par, tais eram as obras que nos assolavam ao olhar.
A Vénus de Botticelli na sua verdadeira escala. Era o que me faltava para que todas as componentes se encaixassem entropicamente no meu espírito. Espírito finalmente purificado ante aquela nudez de Simonetta, a amante de um dos Medicis e que foi a modelo do pintor. O tempo pára, Botticelli guardou para sempre a alma da bella Simonetta neste rectângulo perfeito de ouro.
Ainda não refeito desta paixão anacrónica e proibida, aqui confessada, prossigo de sala em sala onde o resto guardo para mim...

3- A Bienal, quase 900 pintores



É um mercado? é um labirinto cromático? não é a Bienal de Florença na Fortezza da Basso.
Perdi-me mesmo entre pintores do mundo inteiro, também fui seleccionado mas optei por não participar. Preferi ir ver para ajuizar e, quem sabe, participar daqui a dois anos. Conheci uma pintora equatoriana, Ana Maria Jáuregui da qual, e com a devida vénia, publico a foto que fiz com o seu quadro onde a Criação de Adão de Miguel Ângelo é interpretada na vertical, e não no tecto da Capela Sistina. Um personagem intervém sobre o fresco. Uma forma que a pintora encontrou para chamar a atenção sobre a questão do restauro, quais os critérios?
Outro trabalho, do qual não recolhi o nome do autor, tem a ver com um verdadeiro retrato psicológico. Mas o cromatismo dos reflexos lumínicos sobre a pele é muito interessante e um verdadeiro problema de pintura.

4- Pontedera, A mais bela flor

Na visita a Pontedera, de regresso de Pisa, fiz uma visita aos pintores Paola Iacomelli e Paolo Grigò. Amigos.
Da Paola fica a ilustração que fez para capa do livro Il fiore più bello escrito por Franco Luperini. A Paola vem colaborando com ilustrações para os livros deste escritor. Livros sobre grandes questões sociais do nosso planeta. Como a ilustradora diz na dedicatória deste exemplar que teve a amabilidade de me oferecer: “É uma coisa pequenina que fizemos em nome daquela coisa grande que é a solidariedade”

5- Pontedera, Um pintor multiforme

O pintor Paolo Grigò é um amigo de há 10 anos, quando esteve em Montemor-o-Novo, participando num simpósio de escultura em Terracota organizado pelas Oficinas do Convento. Fui ver a sua exposição intitulada Il mutiforme umanesimo, que tinha inaugurado no dia anterior, uma mostra que o Paolo assumiu como o trazer da oficina para o espaço expositivo, no sentido mais artesanal do atelier. Foi gratificante, e não sem uma pontinha de emoção, constatar o quanto o trabalho que fez em Montemor-o-Novo o influenciou nesta década. Pintor, escultor, instalador, este artista desmultiplica-se em várias modalidades expressivas. O exemplo é este quadro onde a expressão e a dinâmica de movimento que impregna no modelado das suas personagens confere uma mais valia quase atmosférica à sua composição.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Desenho, forma e atitude



O desenho como descoberta do nosso eu mais profundo, do gesto nasce a forma.
Uma pequena tela desenhada a aparo e pincel com duas tintas diversas. Uma castanha e outra azul, sobre colagem de papel de jornal. Uma forma de reciclar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O palco















Há uma imagem com 2000 anos que influenciou a forma como represento a paisagem.Trata-se da pintura parietal romana intitulada Os Lestrigões.
Nesta pintura, que interpreta a luta entre Ulisses e esse povo canibal da Sicília, narrada na Odisseia, é visível a enseada que circunda o porto. Está representada em semi-círculo.
Esta solução da descrição da paisagem interessa-me para a minha pintura pois o semi-círculo confere uma carga dramática aos elementos representados em primeiro plano. É como se de um palco de teatro ou de dança se tratasse. Desta forma destruo a perspectiva cónica como elaboração da profundidade e reconstruo a profundidade através do arco de circunferência, desse palco no limite do plano infinito.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Internacional de Artes Plásticas de Vendas Novas

De 27 de Outubro a 25 de Novembro decorre em Vendas Novas mais uma internacional de Artes Plásticas. O amigo José Leitão, responsável pelo evento, lançou-me o desafio de convidar alguns colegas para participarem nesta colectiva através da Galeria 9ocre.
Entre desafios que lancei responderam ao chamado as pintoras Alice Alves (França), Eve Seznec-Avet (França) e Paola Iacomelli (Itália), e os pintores Emanuel Almeida (Algarve) e Telmo Alcobia (Lisboa), para além do meu trabalho. A seguir apresento todos os trabalhos de um grupo que se pretende com alguma heterogeneidade e que se irá diluir no convívio com os restantes artistas a expôr neste salão anual.

para Vendas Novas - Alice Alves


Autora: Alice Alves
Título: Pastor "Afghan"
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 50 x 61 cm
Data: 2007
A Alice é a única pintora que seleccionei para esta exposição que não tem formação universitária. A sua formação é de escola junto de um Mestre, e de dedicado autodidactismo. Mas a sua persistência no acto da pintura faz de si uma exímia observadora. O seu referente temático tem a ver com as figuras de outros mundos sociais, que não o globalizado ocidente. Este pastor afegão é um exemplo de retrato psicológico, a valência do desenho mescla-se com a valência cromática numa pintura desenhada que elege a luz e a cor para reforçar a figura aparentemente estática. Aparência, ou ilusão de estaticismo que se dissipa pela veemência da pincelada, ora expressiva no panejamento e atmosfera, ora contida no definir das carnações do retrato e das mãos. Ilusão de estaticismo ainda dissipada pela composição que nos é oferecida pela figura, o peso do cajado à esquerda aponta para o rosto, guia o nosso olhar por entre o gesto e o olhar deste homem que nos desafia prestes a imolar-se em histórias ancestrais.

para Vendas Novas - Paola Iacomelli


Autora: Paola Iacomelli
Título: ONIROAFRICA
Técnica e suporte: Óleo sobre Tela
Dimensões: 25x25 cm
Ano: 2007
O desafio que lancei à Paola tinha a ver com o pequeno formato, conhecendo o seu trabalho ainda na verdura da recente licenciatura na Licenciatura em Belas Artes/Pintura pela “Accademia di Belle Arti di Firenze” - Florença (Itália) e conhecendo ainda os seus temas de referência: África, a sociedade mais justa, o voluntariado, os desequilíbrios desta sociedade global. Esta era uma oportunidade para uma "provocação criativa" dado que esta pintora procura uma expressão pessoal que passa pela pintura e pela militância cívica. Oniroáfrica é também um fruto do diálogo, deste diálogo interior com a sua forte consciência dos problemas deste primeiro e deste terceiro mundo. É ainda uma visão poética pela composição que se estabelece entre as formas claras e escuras, numa técnica de pintura que lembra ecos da forte e intemporal escola florentina. A Paola nasceu no meio da pintura, os seus olhos já viram tudo o que existe de imortal na Florença alma das artes, mas o seu olhar não se conforma com essas paredes históricas, o seu olhar espreita outras histórias que de longe lhe acenam do continente negro onde o pôr-do-sol é eternamente vermelho de sangue.